O tradicional Bar Lagoa, fundado em 1934, foi o local escolhido por Christiane Torloni para esta entrevista. Na ocasião, o sol de inverno banhava discretamente o salão de estilo art déco, parte da História do Rio, deixando a atmosfera ainda mais poética. “Frequento desde cedo. Sou da safra dos anos 1950, filha da bossa-nova. Essa era a luz da minha infância”, observa a atriz paulistana, de 69 anos. “Venho de uma família de artistas (seus pais são os atores Monah Delacy e Geraldo Matheus, morto em 2023). Por conta do trabalho deles, morei em Ipanema na infância.”Celebrando meio século de carreira, ela está em cartaz no Rio com a peça “Dois de nós”, com texto de Gustavo Pinheiro e direção de José Possi Neto, no Teatro Axia Casa Grande, até o dia 1º de novembro. Contracena, pela primeira vez no palco, com o amigo de longa data Antonio Fagundes. No elenco, também estão Alexandra Martins e Thiago Fragoso. A montagem estreou em São Paulo, em 2024, lotou teatros em Portugal e já foi vista
por 200 mil espectadores só no Brasil. Em cena, o mesmo casal em duas fases da vida reflete sobre a passagem do tempo, as escolhas e o imponderável da existência. “As emoções vão se sobrepondo. A peça traz personagens reais em um mundo que não finge ser ideal”, frisa a atriz.
Os questionamentos que provocam risos e lágrimas na plateia reverberam em Christiane. Tendo a arte como a principal aliada, fez a primeira novela, “Duas vidas”, em 1976. Coleciona números de tirar o fôlego: mais de 40 trabalhos em audiovisual, 19 filmes e 19 peças. Também dirigiu, com Miguel Przewodowski, o documentário “Amazônia — O despertar da florestania” (2019) e está às voltas com o seu segundo filme, sobre a mãe, de 97 anos. Casou-se quatro vezes — com o diretor Dennis Carvalho (1947-2026), com quem teve os gêmeos Guilherme e Leonardo, o psicanalista Eduardo Mascarenhas (1942-1997), o artista plástico Luiz Pizarro e o diretor Ignácio Coqueiro. Foi figura ativa nas Diretas Já, em 1984, e passou a defender o meio ambiente muito antes de o assunto virar hype. Assim como a personagem Maria Helena de “Dois de nós”, viveu uma tragédia. Em 1991,

sofreu um acidente de carro na garagem de casa e um de seus filhos, Guilherme, morreu, aos 12 anos. “Passei pela maior provação de uma mãe. Naquele momento, a vida ficou em jogo”, lembra.
Na entrevista de duas horas, além de falar sobre cicatrizes que não fecham, a atriz passeou por assuntos diversos, como política e etarismo. A seguir, os melhores trechos:
Como está sendo contracenar no palco com Antonio Fagundes, com quem você já tinha feito diversos trabalhos na TV?
Nossa primeira vez na televisão foi em “Amizade colorida”, no início da década de 1980. Depois de mais de 40 anos de convívio e de formar casais, estamos vivendo esse sucesso no palco. É um lindo susto. Porque em teatro não há garantias, assim como na vida.
Na peça, é retratada uma relação longeva. Você também as cultiva?
Sim, tenho essa grande chance. Porém, no caminho, assumi compromissos com a democracia, a cidadania e a “florestania” (junção de floresta com cidadania). Isso me afastou de algumas pessoas. O coletivo me interessa. Às vezes, o “um” dá muito trabalho... Não tenho mais tempo a perder com pessoalidades. Nesse sentido, talvez seja meio “solo”.
Você foi casada quatro vezes. Foram relações não muito longas. O que pegou?
Quatro vezes são os casamentos públicos, né? Os que deixo que saibam (o último, com Ignácio Coqueiro, terminou em 2010; em 2022, a atriz fez uma aparição com o então namorado Randal Juliano). O resto tem de ser secreto e divertido. Tem uma frase de Frida Kahlo: “Onde não puderes amar, não te demores”. Como boa aquariana, dou no pé.
Em que momento “dá no pé”?
Sabe o que descobri muito novinha? Que amor vale a pena, mas não a vida, apenas a dos filhos. O amor não pode levar a própria existência, e isso é uma percepção de sobrevivência. Sou atriz e meu lugar de criação ocupa muito espaço. Tem uma hora que fica apertado. Você pode estar numa quitinete ou numa cobertura de mil metros e se sente claustrofóbica. Isso gera doenças, deprime.
Já passou por isso? Ficou doente, deprimida?
Sim. Recuperar o sentido de viver depois de ter perdido um filho foi um trabalho muito delicado. A reconstrução desse caminho é enorme, e não termina nunca: todos os dias assino meu leasing com a vida. Naquela época, em que as pessoas só escreviam cartas, lembro-me de ter ficado impressionada com as demonstrações de afeto que recebi para não desistir, porque havia esse risco. Ano que vem farei 70 anos: estou salvando a minha vida a metade dela. Todo dia faço uma compressa no coração. Claro que tenho grandes motivações para continuar: meu filho, Leonardo, minha mãe, minha nora, Keruse, e meu neto, Lucca.
É bom ser avó?
É muito natural, não adapto nada. Lucca está com 8 anos. Às vezes, Leonardo pede para eu explicar o motivo de eu ter falado uma determinada palavra, o que ela significa. Aí, me pego pensando: “Será que meus filhos recorriam ao dicionário para entender o que falava?”.
Como lida com o etarismo?
Acho meio cruel. Em outros países, atrizes envelhecem e são cada vez mais respeitadas, ganham prêmios pelo conjunto da obra. Vivemos num tempo em que as possibilidades de longevidade estão mais democratizadas. É perverso acusar a capacidade que uma pessoa tem de continuar bem. O colágeno vai embora, mas outras coisas melhoram. O sexo vai ficando uma coisa maravilhosa. Quando a gente é jovem, sabe pouco.
De que maneira mantém esse vigor?
Tem de preservar a curiosidade. Perdê-la é triste. Observo pessoas de 30 e poucos anos com uma coisa embaçada. Dá para ver o silicone, o implante, o botox, mas cadê o brilho? Tem colágeno, hormônios e testosterona, mas falta fogo.
Quais as expectativas para as próximas eleições? Apoia algum candidato?
Meu aconselhamento é que se observe os programas de governo dos candidatos antes de votar.
A floresta mudou a sua visão de mundo?
Sim. Viajei pela primeira vez à Amazônia 40 anos atrás, e foi avassalador. Os índios, falo assim, como o próprio Ailton Krenak (ambientalista), veem e sentem o mundo em 360 graus. O conceito de “florestania”, que defendo no meu documentário, virou disciplina de pós-graduação na Universidade Santa Cecília, em Santos.
Ccomo estão as aulas de surfe?
Há quase 70 anos queria iniciá-las (risos). Porém, no passado, era uma prática só de meninos, e minha mãe não deixou. Na primeira aula, em março, já subi na prancha. O mar regenera. Estou aprendendo a ler a onda. É zen.
Por que “hoje é dia de rock, bebê”, dita por você no Rock in rio de 2011, viralizou tanto?
Foi a frase certa na hora certa. Adolescente, assisti à peça “Hoje é dia de rock”, no Teatro Ipanema, umas 15 vezes. E, desde criança, chamo as pessoas de bebê. De um tempo para cá, virou sinônimo de “hoje tem” (risos).
Cinquenta anos de carreira. O que pode dizer sobre esse marco?
Que não desisti. Quando as mães vêm falar comigo é o que sempre falo: “Não desista”. É possível se surpreender com a chegada de um bem, de um amor, de uma causa. Vejo tantas coisas que mudaram em mim nos últimos 30 anos... Muitas bênçãos jorraram na minha cabeça.
FONTE: Gente | O GLOBO