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terça-feira, 19 de maio de 2026

Existe risco do surto letal de Ebola chegar ao Brasil? Especialistas avaliam

Estágio mais alto de alerta da OMS foi decretado no último fim de semana em meio ao surto que já acumula mais de 500 casos e 130 mortes suspeitas na República Democrática do Congo e em Uganda

No último final de semana, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decretou que o surto do vírus na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda representa uma emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais alto de alerta da organização.

O chefe da OMS disse também que o cenário ainda não atende aos critérios de "emergência pandêmica", segundo a definição dos Regulamentos Sanitários Internacionais, embora tenha destacado profunda preocupação com a amplitude e a rapidez da disseminação do vírus. O surto atual já acumula mais de 500 casos e 130 mortes suspeitas.

No momento, especialistas explicam que, para o Brasil, não há risco de que o Ebola se dissemine e provoque surtos como o observado nos países africanos. Para Leonardo Weissmann, infectologista do Hospital Regional Jorge Rossmann, em São Paulo, e mestre em Ciências, Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP), o meio de transmissão do patógeno dificulta a sua maior dispersão pelo mundo:

— Embora a possibilidade de importação de um caso por viajante não possa ser completamente descartada em um mundo globalizado, o Ebola não é uma doença de transmissão aérea. O contágio ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas pela doença, o que limita significativamente sua capacidade de disseminação em comparação com vírus respiratórios, como influenza ou SARS-CoV-2, que causa a Covid-19.

É como também enxerga o cenário o coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas, André Bon. Para ele, o risco de algum caso importado vir para o Brasil agora é “muito baixo”:

— As recomendações da OMS estão direcionadas às províncias e aos países que fazem fronteira com a região do surto. O que chama a atenção nesse momento é o contexto social da região, que dificulta o acesso de autoridades sanitárias para fazer diagnóstico e contenção do surto, e os casos identificados em outras províncias da RDC e de viajantes na Uganda que retornaram da RDC. Mas são questões mais regionais, e ainda não para países mais distantes.

Nesta quinta-feira, o diretor-geral da OMS afirmou que alguns fatores levaram à determinação de emergência internacional, entre eles o elevado número de casos e óbitos já detectados; o fato de a espécie do Ebola em circulação, chamada de Bundibugyo, não ter vacinas ou terapias disponíveis e a identificação do vírus em grandes cidades da RDC.

Além disso, Tedros mencionou o registro de mortes entre profissionais da saúde, indicando transmissão associada aos serviços médicos; o fato de a região afetada, a província de Ituri, na RDC, ter um movimento populacional significativo e, por fim, ser uma área "altamente insegura", com a intensificação de conflitos desde o final do ano passado.

— O risco de o Ebola chegar no Brasil é considerado baixo. Mas desde que a OMS declara uma emergência de saúde pública de importância internacional, traduz-se que existe risco a outros países. Então o risco não é zero, mas é baixo. O que me preocupa mais são os casos relatados em Uganda, porque são na capital, onde há mais conexões aéreas — diz a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.

Os especialistas concordam que o fato de ser a espécie Bundibugyo e de o vírus estar se espalhando numa região com importantes desafios logísticos e de acesso aos serviços de saúde de fato justificam a atenção internacional dada ao surto.

— O mais importante agora é manter sistemas de vigilância epidemiológica preparados para identificar rapidamente casos suspeitos em viajantes procedentes de áreas afetadas, garantindo isolamento, investigação laboratorial e rastreamento de contatos quando necessário. A experiência acumulada com surtos anteriores demonstra que medidas de saúde pública bem executadas são capazes de interromper a transmissão e evitar a disseminação internacional da doença — afirma Weissmann.

Também em relação à vigilância, Rosana lembra que o período de incubação do vírus, tempo entre a infecção e o surgimento dos sintomas, é geralmente de 2 a 12 dias. E que apenas ao demonstrar os sintomas, o indivíduo passa a poder transmitir o microrganismo para outras pessoas.

— Dificilmente uma pessoa com quadro clínico tem condições de viajar. Mas, se uma pessoa vem dessas regiões e, aqui, ainda nesse período de incubação, manifesta sintomas da doença, é importante que as autoridades brasileiras estejam atentas e tenham um plano de contingência para esse caso importado.

FONTE: O Globo / Saúde

Por Bernardo Yoneshigue

 — Rio de Janeiro

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